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Amamentação e partilha

Hoje venho falar de um tema controverso, que provoca imensas discussões em grupos de maternidade nas redes sociais, verdadeiros prós e contras - Amamentação.

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Como já sabem, conhecemos-nos num curso de preparação para o parto em que tudo se centrava na natureza e na sua função, na forma ancestral como a maternidade tem de ser vivida, no parto mais naturalista e respeitoso para a mulher e para o bebé e na capacidade de, como mamíferos, nutrir o pequeno ser que durante meses foi nutrido por um pequeno cordão ligado à mãe...

Não considero necessário alongar-me sobre os benefícios da amamentação: a Unicef aconselha a amamentação exclusiva durante os primeiros seis meses e, de forma complementar, até aos dois anos de idade.

Apesar destas indicações, a indústria farmacêutica, os profissionais de saúde mal informados e os "opinadores" (que nascem ao mesmo tempo que o bebé) massacram a nova mãe, carregada de dúvidas, hormonas e horas infinitas de sono mal dormido, com falsos preconceitos que se o bebé chora ou não ganha peso é porque tem fome, o leite é fraco, o leite não alimenta, etc.

Estaremos nós, sociedade moderna do séc XXI, a desacreditar na forma como a humanidade se desenvolveu?! Ou simplesmente procuramos uma resposta para todas as nossas questões, pese embora o nosso instinto nos diga para apenas confiar...?!

Muito haverá a dizer sobre este tema num novo post desta área, mas vejo que já me alonguei mais do que pretendia.

Não quero dizer que o faço melhor ou pior, ou sou melhor ou pior mãe, vou apenas contar a minha experiência no que concerne à amamentação.
Quando o P nasceu, a pega era horrível, ele era um bebé de termo (40s+6d), mas estivemos 36h em trabalho de parto (sim, foi mesmo um tra-ba-lho) e estávamos exaustos. Tive contacto pele a pele precoce e amamentei o meu bebé logo nos primeiros minutos de vida, por isso, quando cheguei à enfermaria, cerca das 21h, já o colostro se fazia sentir e as mamas estavam duras, tensas e doíam horrores.

Nessa noite ele já não saiu da mama, chorava imenso, não pegava bem e só engolia ar o que resultou em cólicas abdominais intensas... percebi que algo não estava bem! Quando saí da maternidade já tinha quatro gretas e sempre que o meu filho ia mamar (muitas vezes de hora em hora e durante uma hora), tinha de morder uma toalha.

O leite desceu nessa noite, fiquei com febres altas, não conseguia fechar os braços e apesar das copas de silicone com compressas enroladas (que usei durante seis meses), jorrava leite para toalhas e celuloses, o diagnóstico era ingurgitamento mamário e doía que se fartava!

Foi aí que entrou a CAM - conselheira de aleitamento materno, na mesma pessoa da enfermeira da preparação para o parto. O que ela me ajudou! Percebi finalmente que tudo estava relacionado com a má pega, e na primeira vez que lá fui com o bebé, ele mamou sem engolir 1cm3 de ar e, curiosamente, deixou de me doer.
Era realmente altura de mudar de estratégia.

A conselho da CAM, comecei a corrigir a pega: abocanhar toda a aréola e não só o bico, fazer muito topless em casa (mamas ao léu e arejadas!), pensos hidrocolóides no frigorífico para aliviar o edema da mama e uma gota de leite após cada mamada!

Para além disso, começamos (eu e o meu marido que foi a pessoa que mais me apoiou e nunca me deixou desistir) a extrair leite para que ele o desse em biberão (após a pega bem corrigida) durante a madrugada.
Que bem me sabiam 2h de sono ininterrupto!

Tudo começou a melhorar, mas o leite era cada vez mais... tinha uma produção imensa: o meu bebé tinha muita demanda e, por isso, a minha fábrica funcionava a todo gás! Então, a extração com bomba passou a ser uma das minhas rotinas. Todos os dias extraía cerca de 360ml e congelava, acumulei cerca de 100 sacos, mais coisa menos coisa, ainda antes dos 6 meses de vida.

A dada altura uma amiga do grupo adoeceu e teve de ser operada de urgência. Para ela, o leite adaptado antes dos 6 meses não era opção e o meu leite congelado estava pertinho, disponível e de um bebé com uma semana de diferença, o que mais poderia querer...? Telefonou-me triste, que não queria desmamar por estar doente e eu ofereci-me para doar o meu leite (ou do meu bebé) para o dela. Passei, até, a extrair para que a bebé levasse leite congelado para o infantário para a ajudar.

Em outra circunstância, quando o cansaço e as doenças oportunistas tomam conta de nós, também doei a outra amiga do grupo: a geleira lá ia carregadinha de néctar de vida para que a bebé ficasse saciada!

Nesses tempos senti-me muito bem comigo própria. Senti um propósito na vida, na nova vida de mãe e percebi que estava com este grupo por alguma razão. Sempre que as via, pegava nessas bebés ao colo e elas sorriam para mim; eu sabia que não lhes era indiferente, sabia que, bem cá dentro, no meu coração, as tinha marcado para a vida...

Antes que o possam, sequer, considerar, nunca o fiz para me vangloriar, nem tão pouco considero um ato de altruísmo. Para mim, elas eram já parte da família, alguém que esteve sempre presente, muitas vezes, quando mais ninguém esteve.

Estaremos, para sempre, ligadas pela nossa história e por tantas outras que iremos viver!

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